Entre cidades, paisagens vulcânicas, campos agrícolas e florestas, o programa reúne quatro obras que exploram as relações entre corpo, território e imaginação política a partir de perspectivas queer, decoloniais e especulativas. Longe de conceber o território como um espaço neutro, os filmes aqui apresentados propõem-no como um campo vivo, atravessado por histórias coloniais, regimes de trabalho, deslocações forçadas e formas de pertença em constante mutação.
Neste ciclo, o corpo surge como lugar de inscrição dessas tensões, mas também como dispositivo de transformação. Em Migranta, de Manauara Clandestina, a experiência da migração é abordada como condição simultaneamente geográfica, política e existencial. Através da combinação de performance, arquivo e testemunho, o filme constrói uma cartografia sensível de vidas em trânsito, onde identidades dissidentes atravessam fronteiras e reinventam modos de habitar o mundo.
Essa articulação entre corpo e território ressurge em In Tierra Retumbante, de Elyla, onde o vulcão Masaya — “montanha que arde” — se torna figura de memória geológica e cultural. Ao revisitar o clássico El Güegüense a partir de uma perspetiva queer, a obra reinscreve tradições populares, confrontando as persistências da colonialidade e afirmando o potencial dos corpos como espaços de resistência e reimaginação histórica.
Num registo distinto, YWY, a andróide, de Isadora Neves Marques, desloca esta reflexão para um cenário agro-tecnológico. Num campo de milho geneticamente modificado, uma andróide indígena confronta questões de reprodução, linguagem e direitos do corpo. O filme propõe uma ecologia especulativa onde as fronteiras entre humano, tecnologia e vegetal se tornam instáveis, revelando os limites da perceção e os regimes de poder inscritos na biotecnologia contemporânea.
Por fim, na série Pteridophilia, Zheng Bo imagina formas de intimidade radical entre humanos e plantas. Ao explorar relações de desejo, cuidado e interdependência entre espécies, a obra desafia a separação moderna entre natureza e cultura, propondo uma ecologia do sensível que expande os limites do humano e convoca outras formas de coexistência.
Colocadas em diálogo, estas obras desenham um percurso que se move das fronteiras humanas para ecologias mais amplas de relação. Entre memória, deslocação e imaginação especulativa, This Must Be The Place convida-nos a pensar o território não apenas como espaço geográfico, mas como um campo de forças onde se ensaiam práticas de resistência e se esboçam outras formas de vida comum.