Os Cinétracts de Maio de 68: a revolução no cinema

Bernardette Caille

Os Cinétracts são curtas-metragens, deliberadamente anónimas, feitas durante as manifestações de maio de 1968 em Paris. Foram filmados sempre na forma de um trabalho colectivo sem assinatura, por vezes por diretores reconhecidos como Jean-Luc Godard ou Chris Marker. Os Cinétracts fazem parte dos projetos concebidos pelo programa Etats Généraux du Cinéma, reunidos a partir de 17 de maio de 1968. Cada Cinétract é filmado no banc-titre (suporte de animação) sem edição, com fotografias francesas e estrangeiras, geralmente numa única bobine de 16mm. Devem (de acordo com um texto da época) “desafiar-propor-chocar-informar-questionar-afirmar-convencer-pensar-gritar-rir-denunciar-cultivar”. A produção dessas curtas cessou nos meses seguintes ao final dos eventos de maio-junho de 1968.

Le Rouge tem um estatuto diferente. Intitulado Film-tract e numerado “1968”, é assinado pelo artista Gérard Fromanger, com Jean-Luc Godard como técnico. É um projeto de cartaz para o Atelier Populaire da École des Beaux Arts em Paris. Os cartazes com slogans políticos, todos anónimos e com a estética mais sóbria possível, eram ratificados por uma assembleia que votava todos os dias os cartazes que seriam divulgados no dia seguinte. O projeto de Fromanger e Godard não foi aceite. Atordoados por essa recusa, eles decidem fazer um filme. Fromanger, portanto, realiza o seu projeto em frente a uma câmara.

Durante as manifestações de maio de 1968 em Paris, estudantes e artistas juntavam-se para imprimir até 3000 cartazes por dia, que eram afixados por voluntários nas paredes de Paris e de outras grandes cidades francesas. Num trabalho coletivo, eles reuniam-se nos ateliers para debater sobre os slogans e o poder das palavras usadas, de forma a que as produções estivessem mais próximas da realidade das lutas. Essa “revolução plástica” também floresceu noutras áreas, como na música, no cinema, na filosofia e na literatura, que experimentaram imensas transformações, dando origem a movimentos originais e além-fronteiras.

Os Cinétracts foram feitos com a mesma filosofia: matéria-prima, sem edição, sem assinaturas, sem som. Estes filmes tiveram uma distribuição militante, notadamente através da cooperativa SLON – Service de Lancement des Œuvres Nouvelles (serviço de lançamento de novas obras) que, mais tarde se tornou Iskra (faísca em russo, em referência à Revolução de 1917). Até ao momento, 111 Cinétracts foram recuperados e restaurados.

Detalhes

Local:MNAA
Horário31 Ago, às 22:00
Duração50′

Bernardette Caille

França

Em exibição nesta Sessão:

Cinétracts

Cinétracts
Cinétracts n° 01, 02, 04, 05, 06, 07, 08, 09, 12, 16, 21, 23, 24, 26 e 106
Artista(s) Anónimo(s)