Hidrológicas

Margarida Mendes

O pó proveniente da depressão de Bodélé no quase desertificado lago Chad, localizado no sul do Sahara, surge como uma poeira mágica, viajando quilómetros através do oceano para se tornar no fertilizante essencial de um dos mais exuberantes ecossistemas do planeta, a Amazónia. Desta região agora inóspita na África Central, surge este elixir nutritivo que, galgando a atmosfera, vem sedimentar-se como o subconsciente fértil da floresta em transição. Este subtil balanço de essências em movimento, é explorado por Adrian Lahoud nas suas investigações sobre escala, aerossóis e violência climática, quando apela à nossa compreensão para as componentes dinâmicas das fronteiras planetárias, as mesmas nunca unas e em permanente desequilíbrio e negociação.
O intercâmbio entre as valências de cada elemento planetário, a sua função, metabolismo e regulação está inserido em múltiplas escalas de intervenção. Quando iniciamos a discussão sobre a sustentabilidade ampliamos o espectro destas escalas, para a concepção humana do impacto social, económico e ambiental de cada elemento. Com o avanço da noção de capital natural, a mentalidade corporativa tem reequacionado o vocabulário e o espectro como a natureza é inserida numa equação orientada para o progresso. Mas poderá o mundo natural ser medido e projectado a partir de uma visão refractada e dividida? E como serão inseridas diferentes concepções de natureza nesta equação – incluindo visões plurais e polifónicas, que abrangem cosmovisões não ocidentais e a perspectiva do não-humano?
Nesta sessão dedicada à hidrológica viajaremos das monoculturas do Vale Imperial Californiano alimentado pelo Rio Colorado, até aos extensos complexos de barragens de Itaipu, Belo Monte e Bento Rodrigues no Brasil, terminando no deserto do Golfo Persa. Numa viagem que trespassa vários níveis de aproximação da câmara ao sujeito natural – da out-of-body experience ao registo íntimo do testemunho etnográfico – assistiremos a diferentes multiplicações de natureza, ela mesma refractada e nunca estanque, incomensurável e por vezes ficcionada. Navegando o hiato cósmico da partícula que se desenvolve, desintegra e reencarna, investigaremos a dimensão fluída dos ecossistemas planetários, perspectivando a noção de escala e a nossa própria posição, nesta permanente equação em fluxo.

Detalhes

Local:MNAA
Horário:31 Ago, às 23:15
Duração:54’
Imagem:Imperial Valley (Cultivated Run-Off), Lukas Marxt

Margarida Mendes

Portugal

Em exibição nesta Sessão: