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Curadoria
Ana Rito
27 Agosto
às 22:00
Local
Magical World

Why do you wanna wake me from such a beautiful dream?
Can’t you see that I am sleeping?
So why don’t you leave me alone?
For life is so exciting on the island in my room
And as I sing and dance along the shadows of the moon

(Porque queres acordar-me de um sonho tão belo?
Não vês que estou a dormir?
Porque não me deixas em paz?
Porque a vida é tão excitante na ilha do meu quarto
E eu canto e danço com as sombras da Lua)
“Magical World”, Rotary Connection, 1968

“Magical World”, de Johanna Billing, foi realizado num centro-escolar em Dubrava, um subúrbio de Zagreb. Um grupo de crianças ensaia a música homónima de 1968 dos Rotary Connection - uma das primeiras bandas dos Estados Unidos a tocar uma mistura de pop-rock psicadélico e soul music num ambiente ativista e de defesa dos direitos civis na década de 1960. O filme faz coincidir o contexto histórico desta canção com a vida real de uma geração de crianças que cresce num país em plena construção.

O presente programa, que lhe repete o título, é composto por uma coleção de melodias, silêncios e duas estruturas cinematográficas que têm na voz o fora de campo, procurando resgatar-lhe a audácia da imaginação, do sonho, da ficção como manifestação da resiliência - que tem na capacidade de encantamento o seu motor.
E é na infância, na juventude, que o mundo parece ter a dimensão do nosso quarto, onde, com o som do rádio bem alto, todas as possibilidades são vividas e tudo parece estar ao alcance de um fechar de olhos e do mais profundo dos desejos, como na letra acima: “For life is so exciting on the island in my room”.

Segundo Georges Didi-Huberman, as sociedades contemporâneas, capitalistas, promovem aquilo que denomina de “desimaginação”, ou a não promoção do desenvolvimento de sentido crítico e inventivo nas gerações mais jovens. Ora, o exercício da imaginação – do sonho à alucinação - surge, nesta proposta curatorial, como forma de resistência e regeneração (dos corpos, das imagens, dos mundos).

O gesto circular de “Janiele”, de Caetano Dias - do bambolear do arco ao movimento da câmara - desenha a linha que, a ritmos diferentes, estabelece uma espécie de corporealidade que atravessa a nossa proposta.

“In Purple” acompanha um grupo de jovens da escola de dança Mix Dancers Academy em trânsito pela cidade de Råslätt, nos subúrbios da Suécia. Parecem carregar o peso da mudança transmutado num enorme vidro roxo. Carregam em ombros.

Enquanto comunidade; gerando comunidade.

«Some are like water, some are like the heat, some are a melody and some are the beat, sooner or later they all will be gone, Why don't they stay young?» No filme de José Maçãs de Carvalho, uma versão de “Forever Young” do grupo Alphaville (1984), cantado em cantonense, anima uma imagem publicitária de um jovem chinês, numa rua de Hong Kong. Imortalizando-o.

Ser para sempre jovem. “Phoenix Flight (Via Crucis is not 4U)”, de Juliana Julieta convoca o processo de transposição e voo da fénix, num ritual de renovação e renascimento contínuo.

Ser para sempre jovem.

Esta fuga em frente manifesta-se de seguida em “Enigma” de Pierre Coulibeuf. |
Duas mulheres que indicam a imagem por vir. Aqui, a imagem torna-se imensurável,
e imensuráveis tornam-se também as relações que se fundam, porque é o tempo que aqui importa e que se torna matéria – no duplo sentido que esta palavra suporta –, o tempo vivido que torna indiscerníveis real e simulacro, real e ficcional. Ou seja, Enigma apresenta-nos o sonho e a ficção (ou alucinação) como formas únicas de apreensão da realidade real.

«A imagem é um sopro, um fôlego», diz-nos Deleuze, e mostra-nos Cao Guimarães e Rivane Neuenschwander em “Inventário de pequenas mortes (Sopro)”. Lembrando, no contexto da nossa narrativa, “Les Bulles de Savon” de Édouard Manet (1867) ou, antes dele, Jean Siméon Chardin (1734), onde vemos dois jovens a lançar bolas de sabão. Seguimos a sua trajetória, apreendendo-lhes o rasto, indagando o seu rebentamento.

Do sonho? Do arco que bamboleia? Do corpo em fuga? Do vidro roxo levado em braços? Ou observamos a sua resistência? A plasticidade que é própria das imagens sobreviventes.

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Des Voeux Road (forever young)
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